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O neologismo: maluquices criativas na música popular, por Emanuel Jadir

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A música é uma das manifestações mais antigas do espírito humano, é expressão dos sentimentos. Em uma detida atenção ao estudo das civilizações, podemos se perceber que os povos comumente têm, de certa maneira, um aspecto ligado à música. Isso demonstra ser a música algo inerente ao processo comunicativo do ser humano. Mas a indagação que norteará esse texto é: como a criação de algumas palavras se relacionam com determinadas composições musicais interferindo no cotidiano das pessoas.

Curiosamente, muitas vezes, essas expressões “passam batidas”, despercebidas pela grande maioria dos consumidores desse bem cultural, o qual é intrinsecamente associado à questão sociolinguística. O mais curioso é que muita gente cantarola a canção sem se dar conta de que a palavra nem faz parte do vasto léxico de nossa língua portuguesa.

A produção musical no Brasil é amplamente conhecida e não é de agora que alguns compositores de letras se apropriam do que os estudiosos da área da Linguagem denominam de neologismo, fenômeno linguístico responsável pelo surgimento de novas palavras para satisfazer uma necessidade comunicativa momentânea. Existem pessoas que ainda não sabem que esse fenômeno também tem a ver com a atribuição de um novo sentido que é dado a uma palavra. 

Em vários campos como a economia, política, literatura, arte e outras áreas o neologismo tem ganhado espaço e talvez conquiste mais adeptos ao longo dos anos. E o raio de ação de minha memória acusa rapidamente que na música popular brasileira existem registros desse fenômeno linguístico.

O primeiro está na clássica e imortal canção Maluco Beleza, do icônico Raul Seixas. A letra do velho ideológico rock apresenta o neologismo “maluquez”, proveniente do caráter de sentido da palavra maluquice.

Nesse caso, por causa da tal licença poética, a palavra não é descabida – mas permite a necessária sonoridade à letra. O que talvez dê a impressão de possível efeito do correto emprego do vocábulo e uma falsa sensação de solidez e verossimilhança com a palavra lucidez.

Outro exemplo desse fenômeno linguístico vem do romantismo musical do gênero que é conceituado como arrocha, representado pelo cantor baiano Pablo. Na composição “Porque Homem não Chora” ele evoca a tristeza, sofrimento, e canta para afastá-los com teor de muito machismo impregnado, porque homem que é homem, de verdade, deve chorar sim, se o motivo assim o permitir.

Embora na letra da música não haja a presença de nenhum neologismo, mas a palavra amplamente conhecida como “sofrência” talvez tenha sido o resultado da relação de variação linguística ou da influência dos meios de comunicação.

E, nesse modismo linguístico, fruto da propagação de algumas divulgações mercadológicas veiculadas em televisões, rádios e internet – reside a mais provável explicação para a massificação da palavra que tantos falantes utilizam como sinônimo ou equivalência de sofrimento. Minha memória musical me deixa afirmar com veemência essa tendência, já na década de 70, o poeta paraense Rui Paranatinga Barata, na letra da canção, de sua autoria, Pauapixuna, imortalizada por Fafá de Belém, apresentava essa criatividade “neologística” (me atrevo também lançar mão desse recurso), na textualidade, ao compor o trecho “nessa sofrida sofrência de amar”.

Uma coisa é certa – o neologismo e as palavras integrantes do léxico de nosso idioma coexistem e pelos anos à frente os compositores de músicas ainda serão os responsáveis pela criação de novas palavras.

Acredito que se o pai da Linguística, Ferdinand Sausurre, estivesse vivo e visitasse o Brasil ele iria se divertir “pacas” com as belezas das maluquices criativas de muitas composições musicais ou talvez entrasse numa “sofrência” por causa da pobreza presente nas letras de músicas com fracas cadências rítmicas e desastrosos acordes.

*Jornalista diplomado pela Universidade Federal do Pará (UFPA), mestre em Letras pela Universidade Federal de Rondônia (Unir), professor do curso de Jornalismo na Faculdade UNIRON e Especialista em Responsabilidade Social Corporativa pela Universidade do Estado do Pará (Uepa).

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